Dom Irineo​

Bispo de Tropaion



5° Domingo de Mateus

5º Domingo de Pentecostes

«Os Endemoninhados Gadarenos»​

Leituras Bíblicas

Epístola: Gálatas 5,22-26; 6,1-2
Evangelho: Mateus 8,28-34; 9,1

O Evangelho deste domingo nos conduz para “o outro lado”, para a região dos gadarenos, logo depois de o Senhor ter acalmado a tempestade. A travessia não é apenas geográfica. O Cristo que domina os ventos e o mar entra também no território onde a vida humana parece subjugada por uma tempestade mais profunda: alienação, medo, violência, impureza, exclusão e morte.

Dois homens saem dos sepulcros. Vivem entre os mortos, longe da cidade, temidos por todos. São Mateus observa que eram tão violentos que ninguém podia passar por aquele caminho. Cristo, porém, passa. Onde todos veem um caminho interditado, o Senhor vê uma criatura a ser restaurada. Onde a cidade vê ameaça, Ele vê humanidade ferida.

Os demônios confessam: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Há aqui uma confissão verdadeira quanto ao conteúdo, mas falsa quanto ao coração. São Tiago recorda: “também os demônios creem, e tremem” (Tg 2,19). Não basta saber quem Cristo é. A fé verdadeira não é apenas informação correta sobre Deus, mas comunhão, arrependimento, obediência e amor. Os demônios reconhecem Cristo para manter distância; o discípulo o reconhece para segui-lo.

São João Crisóstomo observa que a permissão dada aos demônios para entrarem na manada revela, ao mesmo tempo, sua fraqueza e sua malícia: nada podem sem permissão divina, mas, quando agem, sua obra é destruição. A queda dos porcos torna visível aquilo que a presença demoníaca queria operar invisivelmente nos homens. Cristo permite que se veja o fim do mal: não liberdade, mas morte; não plenitude, mas desintegração.

São João de Kronstadt destaca que este Evangelho ensina o senhorio absoluto de Cristo sobre todas as criaturas, visíveis e invisíveis; mostra que os demônios não têm poder autônomo; recorda o juízo futuro, que eles pressentem; e chama os fiéis à vigilância, ao arrependimento e às boas obras para as quais fomos criados em Cristo.

A tradição ortodoxa evita dois extremos: negar ingenuamente a realidade do mal espiritual ou imaginar o demônio como poder equivalente a Deus. O mal é real, pessoal e destrutivo; mas não é soberano. Os demônios suplicam. Cristo ordena. Eles destroem. Cristo salva.

A reação dos gadarenos é talvez a parte mais inquietante da narrativa. Eles veem a libertação dos homens, mas pedem que Jesus se retire. O prejuízo econômico pesa mais que a restauração de duas pessoas. Preferem a antiga ordem: os possessos nos sepulcros, a cidade funcionando, os interesses preservados. Cristo desinstala essa falsa paz. Ele revela que uma comunidade pode acostumar-se com a exclusão, desde que os excluídos permaneçam longe.

A passagem conserva grande atualidade espiritual porque revela que Cristo não se limita aos espaços religiosos já ordenados, nem se aproxima apenas dos que parecem preparados para recebê-lo. Ele atravessa para a região marcada pela impureza, pelo medo e pela morte, mostrando que nenhuma condição humana está fora do alcance de sua misericórdia. A Igreja, continuando a presença do Senhor no mundo, é chamada a reconhecer em cada pessoa ferida não um caso perdido, mas uma criatura destinada à restauração. A cura oferecida por Cristo não é simples reintegração social nem alívio psicológico momentâneo; é libertação profunda, retorno à dignidade filial e abertura para a vida no Espírito Santo.

Por isso, toda ação pastoral autenticamente cristã deve nascer dessa visão: o homem não é definido por sua queda, por suas paixões ou por suas feridas, mas pela vocação para tornar-se templo de Deus. A comunidade cristã não existe para administrar distâncias, como faziam os gadarenos em relação aos possessos, mas para testemunhar que, em Cristo, até os que habitavam entre os sepulcros podem ser reconduzidos à comunhão e à vida.

A espiritualidade ortodoxa compreende a salvação como cura. O pecado é doença da pessoa; as paixões são energias desordenadas; a Igreja é hospital espiritual; Cristo é o Médico. A oração, o jejum, a confissão, a Eucaristia, a leitura das Escrituras e a vida comunitária são terapias do Reino.

Celebrando Santo Atanásio de Monte Athos, recordamos que a cura cristã exige vigilância e perseverança. O monaquismo athonita testemunha que o homem foi criado para Deus e só encontra sua integridade quando se volta inteiramente para Ele.

O versículo final é doloroso: Jesus entra no barco e parte. Cristo não força a porta de quem o expulsa. A pergunta que fica é simples e severa: o que estamos preservando a ponto de pedir, ainda que silenciosamente, que Cristo se afaste? E o que estamos dispostos a perder para que Ele permaneça conosco?

Referências Bibliográficas:
  • BYBLOS — SINAXE. “Os Endemoninhados Gadarenos”. Texto-base.
  • BÍBLIA SAGRADA. Gl 5,22-26; 6,1-2; Mt 8,28-34; 9,1; Tg 2,19; Jo 1,11.
  • SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, comentário a Mt 8,28-34.
  • SÃO JOÃO DE KRONSTADT. “Homily for the Fifth Sunday of Matthew”, tradução indicada na imagem anexada por John Sanidopoulos.
  • ARCHBISHOP ELPIDOPHOROS. “Homily for the Fifth Sunday of Matthew”, Saint George Greek Orthodox Church, Chicago, 9 jul. 2023.
  • Pe. CHEROUBIM BELETZAS. “The healing of the two demonic. 5th Sunday of St. Matthew”, tradução do Metropolita Panteleimon de Antinoes.
  • Very Rev. PANTELEIMON MANOUSSAKIS. Homilia sobre Mt 8,28-9,1, Church of St Nicholas, Lexington, MA, 8 jul. 2012.
  • OCTOECHOS. Modo 4º.
  • MENAION. 5 de julho, memória de Santo Atanásio de Monte .