A parábola dos lavradores maus é proclamada num momento decisivo do Evangelho segundo São Mateus. Jesus já entrou em Jerusalém e caminha para a Paixão. O confronto com as autoridades religiosas tornou-se aberto, e aquilo que será consumado poucos dias depois começa a aparecer, sob o véu da parábola, como uma verdadeira profecia. Por isso, o Arcebispo Metropolitano Iosif a caracteriza justamente como uma «profecia-revelação»: ao falar do proprietário que planta uma vinha, confia-a a lavradores, envia repetidamente seus servos e, finalmente, entrega-lhes o próprio filho, Cristo está interpretando a história da Aliança e, ao mesmo tempo, revelando antecipadamente o mistério de sua própria rejeição, Paixão e morte.
A imagem da vinha era familiar aos ouvintes de Jesus. O profeta Isaías já havia cantado a vinha plantada e cuidadosamente preparada pelo Senhor: «Meu amado possuía uma vinha em fértil encosta. Ele a cavou, retirou-lhe as pedras e plantou-a de excelentes cepas» (Is 5,1-2). Também na parábola de Mateus tudo começa pela iniciativa do proprietário: é ele quem planta, cerca, escava o lagar e constrói a torre. Antes que os lavradores façam qualquer coisa, tudo lhes é oferecido. A vinha não nasce de seu esforço e não lhes pertence; eles a recebem pronta para cultivar e fazer frutificar. Essa precedência do dom é fundamental para compreender a parábola. Antes da responsabilidade humana está a generosidade divina; antes do trabalho dos lavradores está o trabalho do próprio Deus.
A leitura tradicional identifica nessa vinha, primeiramente, Israel, povo da Aliança, cuidadosamente formado e guardado por Deus; o lagar remete ao altar, a torre ao Templo, enquanto os servos enviados pelo proprietário evocam os profetas e os justos que, ao longo da história, chamaram repetidamente o povo à fidelidade. O Filho enviado por último é o próprio Cristo. Há, inclusive, um detalhe de extraordinária força profética: assim como o filho da parábola é lançado para fora da vinha e morto, também Jesus será conduzido para fora da cidade e crucificado. O Evangelho não nos permite, portanto, separar a parábola do mistério pascal que se aproxima. O Filho enviado à vinha é o Filho que será entregue à morte, e a Pedra rejeitada pelos construtores é precisamente Aquele que, pela Ressurreição, se tornará «a pedra angular».
Entretanto, seria insuficiente ler essa parábola apenas como denúncia de uma infidelidade pertencente ao passado. Pior ainda seria utilizá-la como fundamento para uma oposição simplista entre um Israel rejeitado e uma Igreja que teria ocupado confortavelmente o seu lugar. A advertência dirigida às lideranças religiosas que se apropriaram da vinha permanece dirigida a todo aquele a quem Deus confia seus dons. Se a Igreja recebeu a vinha, recebeu-a não como proprietária, mas como serva; não para vangloriar-se da eleição, mas para produzir os frutos do Reino. A eleição bíblica nunca constitui privilégio sem responsabilidade. Quanto maior o dom, maior a responsabilidade de fazê-lo frutificar.
É aqui que aparece o pecado mais profundo dos lavradores. Eles não são condenados simplesmente porque tiveram uma colheita insuficiente. Algo anterior e mais grave aconteceu em seu coração: deixaram de reconhecer que eram administradores. Quando os servos chegam para receber os frutos pertencentes ao proprietário, são tratados como invasores; e quando avistam o filho, dizem entre si: «Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo e apoderemo-nos de sua herança». A frase revela toda a perversão: aquilo que lhes fora confiado como dom tornou-se, em sua consciência, propriedade. Querem a vinha, mas já não querem o senhor da vinha. Desejam a herança, mas rejeitam o herdeiro.
Essa dinâmica ultrapassa amplamente a questão dos bens materiais. É uma das tentações fundamentais da existência humana: apropriar-nos daquilo que recebemos. A vida nos foi dada, mas facilmente passamos a vivê-la como se fôssemos sua origem e seu fim. Recebemos capacidades, inteligência, oportunidades, relações, recursos e responsabilidades, mas podemos gradualmente esquecer que somos administradores. Até os dons espirituais estão sujeitos a essa deformação. Recebemos a fé, a Tradição, a Igreja, os sacramentos e uma comunidade na qual viver a comunhão, mas podemos transformar esses dons em motivo de autossuficiência, distinção ou poder. Aquilo que deveria conduzir à gratidão passa a alimentar a autorreferencialidade.
É nesse ponto que a reflexão do Metropolita Iosif acrescenta uma dimensão particularmente provocadora à parábola. Retomando uma preocupação presente em autores ortodoxos contemporâneos como o Pe. João Romanides e Christos Yannaras, ele chama a atenção para a possibilidade de a própria experiência religiosa adoecer quando se fecha sobre o indivíduo. A religiosidade pode ser utilizada para alimentar a segurança psicológica, a autojustificação, o julgamento dos demais ou até um «narcisismo sacralizado». Em vez de retirar o homem de si mesmo para colocá-lo em relação com Deus e com o próximo, ela pode tornar-se instrumento de confirmação do próprio ego. Nesse caso, Deus permanece nominalmente no centro do discurso religioso, mas, existencialmente, o homem colocou a si mesmo no centro.
Essa crítica deve ser recebida com discernimento, não como rejeição da religião ou das formas concretas da vida eclesial, mas como chamado à conversão. O problema dos lavradores não era estarem na vinha; era terem esquecido a quem ela pertencia. Também o problema do farisaísmo denunciado por Cristo não estava na fidelidade à Lei, na oração ou no jejum, mas na possibilidade de essas práticas serem separadas da conversão do coração, da misericórdia e da comunhão. Uma tradição religiosa recebida como dom pode transformar-se em instrumento de fechamento quando deixa de conduzir ao encontro com Deus e com o outro.
Contra essa apropriação, o Evangelho apresenta algo desconcertante: a insistência do proprietário. Depois de os primeiros servos serem espancados, mortos e apedrejados, ele envia outros. Depois de estes receberem o mesmo tratamento, envia ainda o próprio filho. A parábola revela, assim, não apenas a gravidade da recusa humana, mas também a extraordinária paciência de Deus. O Senhor não abandona facilmente sua vinha. Ao longo da história da salvação, continua enviando seus mensageiros, chamando, advertindo e oferecendo novas possibilidades de conversão. Finalmente, oferece aquilo que possui de mais precioso: «Por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho».
Nessas palavras já se entrevê o mistério da Encarnação. Deus não responde à infidelidade humana simplesmente retirando-se da história. Aproxima-Se ainda mais. Depois dos profetas vem o Filho; depois das palavras, a própria Palavra faz-Se carne. A parábola encaminha-se, portanto, para o centro do Evangelho: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho unigênito» (Jo 3,16). O envio do Filho é a manifestação suprema de que a relação de Deus com sua criação é determinada pelo amor.
E justamente aqui a leitura apostólica deste domingo oferece a chave que permite passar da parábola à vida concreta da Igreja. Ao concluir a Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo exorta: «Vigiai, permanecei firmes na fé, sede corajosos, sede fortes. Tudo entre vós se faça no amor» (1Cor 16,13-14). A homilia de Dom Irineo recolhida entre nossas fontes percebe acertadamente a importância dessa última expressão: o amor não deve aparecer apenas ocasionalmente entre as obras do cristão, mas constituir sua causa, sua forma e sua finalidade. Cada ação deveria tornar-se testemunho de Cristo porque procede daquele amor cuja fonte é o próprio Deus.
Evangelho e Epístola encontram-se, assim, numa unidade admirável. O proprietário procura os frutos de sua vinha; São Paulo mostra qual deve ser a qualidade fundamental desses frutos. A vinha não foi confiada à Igreja simplesmente para ser conservada. A ortodoxia da fé é indispensável, mas a fé verdadeira necessariamente frutifica. A vida sacramental é indispensável, mas os sacramentos recebidos devem transformar a existência. A oração, o jejum e a ascese são indispensáveis, mas devem produzir um coração capaz de misericórdia, comunhão e amor. Como ensinou o próprio Senhor: «Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros» (Jo 13,35).
Isso nos permite compreender também de maneira mais profunda a contraposição sugerida pela homilia do Metropolita Iosif entre a apropriação egocêntrica e o caráter relacional do Reino. Os lavradores dizem: «apoderemo-nos da herança». O Evangelho de Cristo, ao contrário, revela um Deus que Se dá. O Filho não vem apropriar-Se, mas entregar-Se; não vem transformar a vinha em instrumento de poder, mas oferecer a própria vida para que ela produza fruto. O Reino inaugurado por Cristo possui, por isso, uma estrutura essencialmente eclesial e relacional: o homem encontra sua verdadeira existência quando deixa de viver fechado em si mesmo e aprende a existir em comunhão. Como sintetiza Dom Iosif, a existência torna-se coexistência, o egocentrismo converte-se em abertura ao outro, a insegurança em confiança e o medo em audácia.
A conclusão da parábola, porém, impede qualquer sentimentalismo. O amor de Deus não torna irrelevante a resposta humana. A vinha foi plantada para produzir frutos, e chegará o tempo da colheita. Há uma responsabilidade real diante dos dons recebidos. A paciência divina não significa indiferença à esterilidade; é precisamente o espaço concedido à conversão. Cada visita dos servos, cada palavra profética, cada chamado do Evangelho constitui uma nova oportunidade para devolver ao Senhor os frutos que Lhe pertencem.
Talvez, então, a pergunta mais fecunda para a pregação deste domingo não seja simplesmente: quem eram os maus lavradores?, mas: o que fazemos nós com a vinha que recebemos? A pergunta impede que transformemos a parábola numa acusação dirigida aos outros. Cada cristão recebeu uma vinha. Nossa própria existência é uma vinha. A família que nos foi confiada, a comunidade à qual pertencemos, os talentos que recebemos, o tempo que ainda possuímos, os recursos de que dispomos e, acima de tudo, a fé que gratuitamente nos foi comunicada constituem parcelas dessa vinha divina. O Senhor não nos perguntará apenas se as preservamos, mas que frutos produziram.
Essa perspectiva encontra expressão particularmente intensa na Divina Liturgia. Levamos ao altar pão e vinho, frutos da terra e do trabalho humano, e os oferecemos reconhecendo que tudo provém de Deus: «O que é teu, do que é teu, nós Te oferecemos em tudo e por tudo». Talvez nenhuma fórmula litúrgica expresse tão perfeitamente a atitude oposta à dos maus lavradores. Eles recebem e dizem: «é nosso». A Igreja recebe e responde: «é teu». Tudo vem de Deus e tudo retorna a Deus em ação de graças. A própria palavra Eucaristia significa precisamente isso: agradecimento. O homem eucarístico não se considera proprietário absoluto de coisa alguma; recebe o mundo como dom, oferece-o novamente ao Criador e, nessa oferta, recebe-o transfigurado em comunhão.
É nesse movimento que a Pedra rejeitada pelos construtores se torna a Pedra angular. Os lavradores acreditaram que eliminando o Filho poderiam possuir definitivamente a herança; entretanto, aquilo que parecia derrota torna-se início de uma nova criação. A Cruz conduz à Ressurreição. A rejeição do Filho não destrói o desígnio de Deus, porque «a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos». A vinha permanece sendo de Deus, e seu propósito permanece o mesmo: produzir os frutos do Reino.
Por isso, o Evangelho deste domingo não termina propriamente numa ameaça, mas numa convocação à responsabilidade e à esperança. Ainda estamos na vinha. Ainda recebemos a Palavra. Ainda somos alimentados pelos Santos Mistérios. Ainda temos tempo para produzir frutos. E São Paulo nos oferece a medida pela qual esses frutos poderão ser reconhecidos: «Tudo entre vós se faça no amor». Se aquilo que recebemos de Deus nos torna mais capazes de comunhão, misericórdia, serviço e entrega, a vinha está frutificando. Se, ao contrário, nossa fé nos fecha sobre nós mesmos, alimenta nossa autossuficiência ou nos faz esquecer que somos apenas administradores dos dons de Deus, precisamos novamente ouvir os mensageiros que o Senhor continua enviando.
A vinha não é nossa. É do Senhor. Mas, por sua infinita bondade, Ele a colocou em nossas mãos. E é precisamente nessa confiança que reside simultaneamente a dignidade e a responsabilidade da vocação cristã: receber com gratidão, cultivar com fidelidade e devolver em frutos de amor aquilo que gratuitamente recebemos de Deus.