«Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer».
Dom Irineo
Bispo de Tropaion
VIII Domingo de Mateus
«Dai-lhes vós mesmos de comer»
Leituras Bíblicas:
Epístola (Apóstolo): Gálatas 3,23–29; 4,1–5
Evangelho: Mateus 14,14–22
O relato da multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes é um dos sinais de Cristo mais conhecidos. Sua familiaridade, porém, pode esconder sua profundidade. Não estamos apenas diante de uma solução extraordinária para a fome de uma multidão. O Evangelho revela quem é Cristo, como Ele olha a humanidade, de que modo educa seus discípulos e qual missão confia à Igreja.
O centro do relato não está somente no instante em que o pão se multiplica. Tudo começa com o olhar compassivo do Senhor; passa pela resistência dos discípulos diante do que lhes parece impossível; chega à oferta do pouco que possuem; assume uma forma claramente eucarística nos gestos de Cristo; e termina com doze cestos confiados àqueles mesmos discípulos. O milagre transforma o pão, mas transforma também os servidores da mesa.
Do deserto à mesa
O contexto imediato é doloroso. Jesus soubera da morte de João Batista e retirara-se de barco para um lugar deserto. A multidão, contudo, segue-O a pé, vindo das cidades. Ao desembarcar, o Senhor encontra diante de si não o silêncio que buscara, mas uma grande quantidade de pessoas marcadas pela enfermidade, pelo cansaço e pela necessidade. O evangelista diz que Ele «compadeceu-se delas e curou os enfermos».
Mesmo em meio ao luto pela morte do Precursor, Cristo não se fecha. Sua retirada não se converte em indiferença. Ele permite que a dor humana da multidão entre em seu próprio recolhimento e faz do lugar deserto um espaço de cura e comunhão. A compaixão, no Evangelho, não é emoção passageira nem piedade distante: é o movimento pelo qual Deus se aproxima da miséria humana e a assume como sua.
São João Crisóstomo observa que a perseverança da multidão — deixando as cidades, seguindo Jesus e permanecendo com Ele mesmo quando a fome apertava — já manifestava sua fé. Entretanto, a misericórdia do Senhor ultrapassa qualquer mérito: Ele não atende apenas ao desejo espiritual daquelas pessoas, mas cura seus corpos e prepara-lhes alimento. O ser humano inteiro encontra acolhida diante de Cristo.
O lugar deserto evoca a caminhada de Israel e o maná recebido no deserto. Agora, porém, não é Moisés quem intercede para que o céu dê pão: está presente Aquele que alimenta toda a criação. O deserto, imagem da falta e da impotência, converte-se em lugar de abundância. Onde Cristo está, a esterilidade não tem a última palavra.
«Não é preciso que vão embora»
Ao cair da tarde, os discípulos percebem o problema. Sua preocupação não é cruel: eles sabem que o lugar é deserto e que as pessoas precisam comer. A solução que propõem parece razoável:
«Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar alimento».
O erro não está em reconhecer os limites, mas em imaginar que a necessidade do outro só pode ser resolvida longe de Cristo e fora da responsabilidade da comunidade.
Jesus responde com duas afirmações inseparáveis:
«Não é preciso que vão embora»
«Dai-lhes vós mesmos de comer».
Antes de multiplicar os pães, Ele converte o olhar dos discípulos. A multidão já não poderá ser tratada como um problema externo, a ser dispersado. O Senhor introduz seus seguidores na lógica de sua própria compaixão.
Essa palavra permanece dirigida à Igreja. Há muitas formas de mandar alguém embora: reduzir a pessoa à sua carência; encaminhá-la sem escutá-la; oferecer explicações quando ela necessita de presença; proteger a tranquilidade da comunidade afastando quem chega ferido, pobre ou desorientado. A Igreja trai a mesa do Senhor sempre que considera descartável aquele por quem Cristo se compadeceu.
«Dai-lhes vós mesmos de comer» não significa que os discípulos possuam, em si mesmos, a solução. O mandamento não os torna autossuficientes; revela-lhes sua vocação de cooperadores. Cristo fará aquilo que somente Ele pode fazer, mas não sem acolher a oferta e o serviço daqueles que chamou.
«Trazei-os aqui»: a insuficiência oferecida
A resposta dos discípulos é um inventário da insuficiência:
«Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes».
Diante de milhares de pessoas, o cálculo está correto. Aquilo não basta. Jesus, porém, não lhes pede que neguem a realidade nem finjam possuir mais do que têm. Diz simplesmente:
«Trazei-os aqui».
Esta é uma das mais belas definições da cooperação entre a graça divina e a liberdade humana. O Senhor não exige dos discípulos o que eles não possuem; pede que não retenham aquilo que possuem. O milagre começa quando a pobreza reconhecida deixa de ser desculpa e se torna oferta.
O Beato Teofilacto lê esse gesto como escola de hospitalidade: mesmo o pouco deve ser colocado a serviço do necessitado. São João Crisóstomo acentua que os discípulos não guardaram para si sua pequena provisão nem perguntaram o que lhes restaria. Entregaram-na. Nas mãos de Cristo, o pouco oferecido não permanece estéril.
Também nós somos tentados a adiar o bem até que existam recursos ideais, tempo suficiente, pessoas preparadas e garantias de êxito. O Evangelho não despreza o planejamento, mas liberta-o do medo. A pergunta cristã não é apenas «quanto temos?», mas «já colocamos nas mãos de Cristo aquilo que temos?». Uma visita, uma refeição, uma escuta, uma habilidade profissional, uma sala aberta, algumas horas de serviço ou uma pequena contribuição podem tornar-se o princípio de uma obra muito maior do que seu tamanho inicial.
O Senhor da terra e do mar
Jesus toma os pães e os peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os entrega aos discípulos. O alimento se multiplica sem espetáculo e sem ostentação. O Criador serve-Se dos bens da própria criação para manifestar que a terra e o mar lhe pertencem e que toda fecundidade tem n’Ele sua origem.
Segundo São João Crisóstomo, Cristo não cria nessa ocasião o alimento a partir do nada, mas multiplica aquilo que lhe é apresentado, mostrando que o mundo visível é obra sua e que Ele é o mesmo que, desde o princípio, faz a terra produzir e as águas gerarem vida. O milagre não afasta o ser humano da criação: ensina-o a recebê-la como dom, com gratidão e responsabilidade.
Por isso, antes de comer, o Senhor olha para o céu e abençoa. Ele nos ensina que o pão cotidiano jamais é apenas resultado de posse ou esforço individual. Nele estão o dom de Deus, a terra, a chuva, o trabalho de muitas mãos e a comunhão entre as criaturas. A ação de graças cura a ilusão da autossuficiência e abre o caminho da partilha.
A forma eucarística do dom
Os gestos narrados por Mateus — tomar, abençoar, partir e dar — ressoam de maneira inequívoca na memória eucarística da Igreja. Não se trata ainda da instituição da Eucaristia, mas de um sinal que a antecipa e para ela conduz. No deserto, Cristo aparece como anfitrião da multidão e servidor da mesa; na Ceia Mística, entregará não apenas o pão multiplicado, mas seu próprio Corpo como alimento da vida eterna.
A ordem do relato é decisiva: Cristo toma o que os discípulos oferecem, abençoa, parte e devolve a eles para que distribuam. A fonte do dom está no Senhor; o serviço da distribuição é confiado à comunidade apostólica. A Igreja não fabrica a graça nem é proprietária do Pão da Vida. Ela recebe, dá graças, reparte e serve.
Na Divina Liturgia, confessamos que Cristo é
«Aquele que oferece e é oferecido, que recebe e é distribuído».
Por isso, a Eucaristia não pode ser separada da vida fraterna. Comungar do único Pão e permanecer indiferente à fome do irmão seria negar, na prática, aquilo que o altar proclama. A Liturgia educa nossos olhos para ver, nossas mãos para oferecer e nossos passos para ir ao encontro de quem necessita.
Entretanto, a caridade eucarística não reduz ninguém a objeto de assistência. Jesus manda que a multidão se acomode sobre a relva. O deserto assume a forma de uma sala de banquete, e pessoas dispersas tornam-se convivas. Ninguém compra seu lugar, ninguém apresenta títulos, ninguém recebe por mérito. A dignidade não é acrescentada depois que a fome foi resolvida; ela está presente no modo como Cristo acolhe e alimenta.
Todos comeram e ficaram saciados
Mateus insiste na universalidade e na suficiência do dom:
«Todos comeram e ficaram saciados».
Na mesa de Cristo, não há privilegiados alimentados diante de outros esquecidos. A abundância do Reino não consiste no luxo de poucos, mas na saciedade compartilhada.
Aqui a leitura apostólica oferece uma chave batismal.
«Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo»
e, n’Ele, as diferenças humanas já não podem ser transformadas em instrumentos de exclusão. Paulo não apaga a singularidade das pessoas; proclama que origem, condição social e sexo não estabelecem graus de dignidade diante de Deus. Em Cristo, os batizados são um só e recebem a adoção filial.
A multidão alimentada no deserto torna-se, assim, imagem da Igreja: muitos são reunidos ao redor de um só Senhor, recebem um só dom e aprendem a reconhecer-se como membros de uma mesma família. A unidade eucarística não é uniformidade; é comunhão que impede que alguém seja abandonado fora da mesa.
Doze cestos: memória, missão e responsabilidade
Depois que todos comem, os discípulos recolhem doze cestos de fragmentos. A sobra confirma a realidade e a superabundância do sinal. São João Crisóstomo e o Beato Teofilacto observam que os cestos foram confiados aos Doze como memória concreta do que suas próprias mãos haviam distribuído. Aqueles que antes viam somente a insuficiência passam a carregar a prova da abundância.
Os fragmentos, contudo, não são tratados como restos sem valor. São recolhidos. A generosidade divina não autoriza o desperdício; cria responsabilidade. Quem aprendeu a dar graças reconhece a santidade do dom e cuida para que nada seja perdido enquanto outros passam necessidade.
Os doze cestos evocam também a missão apostólica. O pão entregue por Cristo deve alcançar todo o povo de Deus. A Igreja não existe para acumular os dons do Senhor, mas para levá-los ao mundo. O que sobra após a saciedade da multidão não encerra a missão: torna-se provisão para o caminho que continuará.
Uma pedagogia para a Igreja
- O Evangelho pode ser lido como uma pedagogia em cinco movimentos:Cristo vê: a fé aprende a reconhecer a fome concreta e a dignidade de cada pessoa.
- Cristo se compadece: o sofrimento alheio deixa de ser uma realidade distante.
- Os discípulos oferecem: a insuficiência, entregue ao Senhor, torna-se disponibilidade.
- Cristo abençoa e reparte: a graça transforma o dom em comunhão.
- A Igreja distribui e recolhe: a caridade torna-se serviço responsável, memória e missão.
Essa pedagogia exige um exame sincero. Quem, perto de nós, está sendo mandado embora? Quais são os cinco pães e os dois peixes que ainda guardamos por medo de que sejam insuficientes? Nossas celebrações produzem reconciliação, hospitalidade e cuidado? Sabemos acolher sem humilhar e repartir sem ostentação? Recolhemos os dons com responsabilidade ou convivemos com o desperdício?
A resposta não começa necessariamente por uma obra grandiosa. Começa quando deixamos de dizer «não temos o bastante» como sentença definitiva e ouvimos Cristo dizer: «Trazei-os aqui». O Senhor não nos pede o impossível como se estivéssemos sozinhos. Pede que lhe entreguemos o possível, para que sua graça lhe dê uma fecundidade que não poderíamos produzir.
Conclusão
No deserto, Cristo manifesta-Se como o Pastor que vê, o Médico que cura, o Criador que alimenta e o Senhor que reúne seu povo à mesa. Mas Ele manifesta também a identidade da Igreja: comunidade chamada a não despedir, a oferecer o pouco, a dar graças, a repartir e a guardar responsavelmente os dons recebidos.
Cada Divina Liturgia renova essa vocação. Aproximamo-nos com mãos vazias e recebemos o Pão da Vida; somos reunidos como filhos e herdeiros; e voltamos ao mundo levando a responsabilidade daquilo que celebramos. Depois de comungar, já não podemos considerar alheia a fome do corpo, a solidão, o desespero ou a sede de Deus de nossos irmãos.
O Senhor continua a dizer:
«Dai-lhes vós mesmos de comer».
Que não respondamos apenas com o inventário de nossas limitações. Coloquemos diante d’Ele tudo o que somos e temos. Em suas mãos, a pobreza oferecida torna-se abundância; o deserto torna-se mesa; a multidão torna-se povo; e os discípulos tornam-se servidores da compaixão de Deus.
Referências bibliográficas
- BÍBLIA. Novo Testamento. Gálatas 3,23–29; 4,1–5; Mateus 14,13–22; João 6,1–15.
- JOÃO CRISÓSTOMO, Santo. Homilia 49 sobre o Evangelho de Mateus. Versão inglesa: Gospel Commentary for the Eighth Sunday of Matthew. Tradução e edição de John Sanidopoulos. Orthodox Christianity Then and Now, 2 ago. 2020. Disponível em: https://www.johnsanidopoulos.com/2020/08/gospel-commentary-for-eighth-sunday-of.html. Acesso em: 22 jul. 2026.
- TEOFILACTO DE OHRID, Beato. Explicação do Evangelho de São Mateus. Versão inglesa: Gospel Commentary for the Eighth Sunday of Matthew: The Miracle of the Five Loaves and Two Fishes. Tradução e edição de John Sanidopoulos. Orthodox Christianity Then and Now, 30 jul. 2017. Disponível em: https://www.johnsanidopoulos.com/2017/07/gospel-commentary-for-eighth-sunday.html. Acesso em: 22 jul. 2026.
- HIEROTHEOS DE NAFPAKTOS, Metropolita. Homily Three for the Eighth Sunday of Matthew: The Basic Needs of our Lives. Tradução de John Sanidopoulos. Orthodox Christianity Then and Now, 9 ago. 2022. Disponível em: https://www.johnsanidopoulos.com/2022/08/homily-for-eighth-sunday-of-matthew_9.html. Acesso em: 22 jul. 2026.
- AMERICAN CARPATHO-RUSSIAN ORTHODOX DIOCESE OF NORTH AMERICA. Homily on the 8th Sunday after Pentecost. Disponível em: https://www.acrod.org/orthodox-christianity/articles/spirituallife/8th-sunday-pentecost-homily. Acesso em: 22 jul. 2026.
- LEMASTERS, Philip. Preparing for the Transfiguration and the Dormition: Homily for the Eighth Sunday of Matthew in the Orthodox Church. Eastern Christian Insights, ago. 2025. Disponível em: https://easternchristianinsights.blogspot.com/2025/08/preparing-for-transfiguration-and.html. Acesso em: 22 jul. 2026.
Extraído do site: ecclesia.com.br
Paraskeve, a Justa Mártir de Roma
Vida dos Santos
Paraskevi, a Justa Mártir de Roma
Data de celebração: 26/07/2026
Tipo de festa: Fixa
Santo (a) do dia: Paraskevi, a Justa Mártir de Roma
Santa Paraskeve, que era de uma certa aldeia perto de Roma, nasceu de pais piedosos, Agatho e Politia. Como ela nasceu em uma sexta-feira (em grego, Paraskeve), ela recebeu esse nome, que significa "preparação" ou "preparação" (compare Mateus 27:62, Marcos 15:42, Lucas 23:54 e João 19:31, onde 'sexta-feira' é chamada de "o dia da preparação"). Desde a infância ela foi instruída nas letras sagradas e se dedicou ao estudo das divinas Escrituras, enquanto levava uma vida monástica e guiava muitos à Fé de Cristo. Durante o reinado do imperador Antonino Pio, ela foi presa por ser cristã e instada a adorar os ídolos, mas ela respondeu com as palavras de Jeremias: "Que os deuses que não fizeram o céu e a terra desapareçam da terra" (Jeremias 10:11).
Hino do dia
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Celebrações do dia
1. Santos Ermolaos, Ermippos e Hermócrates
2. Saint Oreozili
3. Santo Inácio, o Esteronita
4. Saint Apia
5. Jerusalém Sagrada
6. Comemoração da Inauguração do Templo do Arcanjo Miguel além de Skalais
7. Comemoração da Inauguração do Templo do Arcanjo Miguel além da Caldéia
8. Encontro dos Santos Teotokos além de Pigadio, perto do novo Pistão
9. São Gerontios, o Monte Athos
10. Saint James no Alasca
11. Saint Symeon, o arquimandrita e estilista "a vida após a morte de Anaplos"
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Matinas - João 20, 11-18
Leituras do dia
Matinas - João 20, 11-18
Epístola - Gálatas 3, 23-29; 4, 1-5
Evangelho - Mateus 14, 14-22
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Evangelho - Mateus 14, 14-22
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Jejum
Livre
Permitido todos os alimentos.
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Livre
Permitido todos os alimentos.
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