Dom Irineo
Bispo de Tropaion
IV Domingo de Mateus :
«Dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado.»
Leituras
Bíblicas
O Evangelho
deste IV Domingo de Mateus apresenta um dos encontros mais belos entre Cristo e
uma pessoa que, aos olhos de muitos em Israel, dificilmente seria considerada
um exemplo de fé. O protagonista não pertence ao povo eleito. É um centurião
romano, oficial do exército que ocupava a Palestina. Humanamente falando,
representava o poder estrangeiro, a autoridade militar e a dominação política.
Contudo, é justamente esse homem quem recebe de Cristo um dos maiores elogios
registrados em todo o Evangelho: «Em verdade vos digo: nem mesmo em Israel
encontrei tamanha fé».
São
Mateus conduz o leitor a uma inversão surpreendente. Enquanto muitos dos que
conheciam a Lei permanecem fechados ao Messias, um pagão reconhece n’Ele uma
autoridade que ultrapassa toda autoridade humana. O centurião não vê apenas um
mestre, um profeta ou um taumaturgo. Reconhece alguém cuja palavra possui poder
absoluto. A sua própria experiência militar ajuda-o a compreender esse
mistério. Habituado à disciplina e à autoridade, sabe que uma ordem verdadeira
produz aquilo que determina. Da mesma forma, compreende que Cristo não
necessita estar fisicamente presente para realizar a cura. Basta que fale:
«Dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado».
É
precisamente aqui que a tradição ortodoxa reconhece uma das mais profundas
profissões de fé do Novo Testamento. O centurião compreende aquilo que muitos
ainda ignoravam: a Palavra de Cristo não é simples expressão verbal. Ela é a
Palavra do próprio Logos encarnado e, por isso, manifesta a energia incriada de
Deus, realizando aquilo que anuncia. O Logos, por quem todas as coisas foram
criadas, continua agindo na criação. Sua Palavra ilumina, fortalece, restaura,
santifica e comunica a vida. Como recorda o Metropolita Hierotheos, enquanto
toda energia criada possui começo e fim, a energia divina é incriada, eterna e
vivificante. Quando Cristo fala, sua Palavra torna presente a ação salvadora do
próprio Deus. Por isso o centurião pede apenas uma palavra. Ele sabe que nela
está presente toda a força da graça divina.
A
humildade do centurião encontrou profundo eco na espiritualidade ortodoxa. As
Orações de preparação para a Santa Comunhão exprimem esse mesmo espírito de
reverência e consciência da própria indignidade:
«Senhor,
meu Deus, sei que não sou digno nem suficientemente preparado para que entres
sob o teto da casa de minha alma…»
Não
se trata de uma repetição literal das palavras do Evangelho, mas da mesma
disposição interior: reconhecer nossa pobreza espiritual e confiar inteiramente
na misericórdia de Cristo.
Outro
aspecto digno de nota é que o centurião não procura Jesus para si. Intercede
por seu servo, alguém que, segundo os critérios sociais da época, ocupava
posição muito inferior à sua. Antes mesmo de pedir, ele já amava. A verdadeira
fé manifesta-se imediatamente em amor ao próximo e, por isso, torna-se
intercessão. O sofrimento alheio converte-se em sua própria preocupação. A
oração do centurião revela que ninguém se salva isoladamente. A vida cristã é
inseparável da intercessão. Rezamos pelos enfermos, pelos aflitos, pelos
viajantes, pelos governantes, pelos adormecidos e por toda a Igreja porque
aprendemos, com esse oficial romano, que a fé jamais permanece fechada em si
mesma.
Jesus
admira-Se daquela fé e anuncia que muitos virão do Oriente e do Ocidente para
tomar lugar à mesa do Reino juntamente com Abraão, Isaac e Jacó. Essas palavras
ultrapassam o episódio da cura e revelam a dimensão universal da salvação. O
Reino de Deus não conhece fronteiras de povo, cultura ou nação. Nele entram
todos aqueles que acolhem Cristo com fé humilde. A descendência de Abraão já
não é definida apenas pelos vínculos da carne, mas pela adesão ao Senhor. O
centurião antecipa a vocação universal da Igreja, que reunirá homens e mulheres
de todas as línguas e povos na única comunhão do Corpo de Cristo.
A
Epístola aos Romanos ilumina plenamente o significado dessa fé. São Paulo
recorda que fomos libertados da escravidão do pecado para nos tornarmos servos
da justiça. A fé jamais permanece uma simples adesão intelectual. Pela graça,
ela configura progressivamente toda a existência humana, libertando-nos do
domínio do pecado para uma vida de santificação. O mesmo Cristo cuja Palavra
cura o servo transforma também o coração do centurião. O verdadeiro milagre não
consiste apenas na cura física realizada à distância. O maior milagre acontece
no interior daquele homem que reconhece em Jesus o Senhor e se abandona
inteiramente à sua vontade. Como observa o Arcebispo Elpidophoros, antes mesmo
de o servo recuperar a saúde, já havia ocorrido um milagre ainda maior: a
transformação espiritual de um oficial romano que aprende a confiar plenamente
em Cristo.
Também
nós somos continuamente convidados a essa transformação. Em cada Divina
Liturgia ouvimos a Palavra de Deus, que permanece viva e eficaz. Não escutamos
apenas um relato do passado, mas o próprio Cristo que continua falando à sua
Igreja. Cada leitura das Escrituras, cada oração do coração, cada invocação do
santo nome de Jesus e, sobretudo, nossa participação nos santos mistérios
tornam presente essa energia vivificante que restaura o homem inteiro.
Mais
do que revelar a grandeza da fé do centurião, o Evangelho revela a grandeza
d’Aquele em quem ele acreditou. A fé cristã não repousa sobre uma ideia nem
sobre um sentimento religioso, mas sobre a pessoa do Verbo encarnado, cuja
Palavra permanece viva, eficaz e salvadora em todos os tempos.
O
centurião ensina-nos, enfim, o caminho do verdadeiro discípulo: reconhecer
humildemente nossa pobreza espiritual, confiar sem reservas na Palavra de
Cristo, interceder pelos irmãos e permitir que a graça transforme toda a nossa
vida. Quem vive dessa maneira já começa, nesta vida, a experimentar os frutos
do Reino. Libertado da escravidão do pecado, caminha na santificação e acolhe,
desde agora, o dom da vida eterna prometido por Deus: «o dom gratuito de Deus é
a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 6,23).
Referências
Bibliográficas:
Bíblia
Sagrada (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Rm 6,18-23).
São
João Crisóstomo. Homilias sobre o Evangelho de Mateus, Homilia XXVI.
São
Teodoro Estudita. Catequeses.
Metropolita
Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos. Homilia para o IV Domingo de Mateus.
Arcebispo
Elpidophoros da América. Homily at the Divine Liturgy on the Fourth Sunday
of Matthew. Kimisis tis Theotokou Greek Orthodox Church, Poughkeepsie (NY), 5
jul. 2020.
Extraído do site: ecclesia.com.br
Vida dos Santos
Data de celebração: 28/06/2025
Tipo de festa: Fixa
Santo (a) do dia: Os santos, gloriosos e milagrosos Anárguiros, Ciro e João
Biografia:
Hino do dia
Celebrações do dia
2. São Sérgio, o Justo, o Mestre
3. Saint Macedonian
4. Saint Ulkianos
5. São Paulo, o Doutor
6. Santos dois filhos
7. São Moisés, o Partidor
8. São Donagos, bispo da Líbia
9. Santos Setenta Testemunhas em Skythopolis
10. Santos três testemunhas da Galácia
11. Saint Magnus
12. Santos Sergios e Germanos são os milagres em Valami
13. Recuperação de relíquias sagradas de São Theoktistis
14. Todos os Santos Hierarcas em Novgorod, Rússia
15. Encontro dos Santos Novos Mártires após a queda de Constantinopla
16. Encontro de Panagia Megalomatas em Skiathos
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Leituras do dia
Epístola - Romanos 6, 18-23
Evangelho - Mateus 8, 5-13

