Domingo depois da Santa Cruz
«Não eu, mas Cristo em mim»: o caminho simples e inteiro do
discípulo.
A Liturgia deste Domingo Após a
Festa da Exaltação da Preciosa e Vivificante Cruz, convida-nos a passar da
contemplação do mistério objetivo — a Cruz elevada, venerada e incensada — à
sua assunção subjetiva: a Cruz tomada, a Cruz vivida, a Cruz que configura o
discípulo. O movimento é deliberado: ontem venerávamos a árvore da vida; hoje,
pela Palavra, somos enxertados na sua seiva. A Igreja coloca lado a lado a
confissão paulina — “fui crucificado com Cristo… já não sou eu que vivo, mas
Cristo vive em mim” (Gl 2,19-20) — e a gramática do seguimento traçada pelo
Senhor: “negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mc 8,34). A cruz
venerada torna-se forma; o sinal traçado sobre o corpo torna-se morphosis da
alma (cf. Rm 6,17).
Na Epístola aos cristãos da Galácia,
Paulo não opõe fé e obras como se fossem termos excludentes, nem propõe uma
abolição da ascese; ele contrasta a economia antiga, na qual o homem buscava
justificar-se “pelas obras da Lei”, com a economia nova, onde a justiça é dom
do Crucificado, acolhido pela fé que opera pelo amor (Gl 5,6). “Morrer para a
Lei a fim de viver para Deus” (Gl 2,19) não é desobrigar-se do bem, mas recriar
o agir a partir de outra fonte: “o Filho de Deus, que me amou e Se entregou por
mim” (v. 20).
São João Crisóstomo nota que
Paulo “não suprime as obras, antes as enraíza na Cruz; pois é a Cruz que torna
fecundo o agir” (Hom. in Gal., PG 61). Por isso, a justificação desemboca numa
praxis cruciforme: oração que se dá, caridade que se consome, obediência que se
oferece.
O Evangelho explicita a mesma
dinâmica em três verbos que repartem a existência eclesial: negar-se, tomar (a
cruz), seguir (Mc 8,34). Negar-se não é ódio de si — heresia contra a criação
—, mas libertação do falso eu, composto de paixões e auto-referência, que
disputa com Cristo o trono do coração. Tomar a cruz não é procurar sofrimentos,
mas consentir em tudo o que, por Cristo e pelo Evangelho, mortifica a vontade
própria e, assim, abre espaço para o querer divino. Seguir é permanecer na
obediência — eclesial, doutrinal, pastoral — onde a liberdade encontra o seu
campo de jogo. Teofilacto observa:
“Tomar a cruz é acolher
voluntariamente o que contraria a afeição do ego, por amor d’Aquele que
primeiro levou a Cruz” (Enarr. in Marc. 8).
A tradição patrística lê estas
leituras como variações sobre um mesmo tema: a recapitulação na Cruz. Ireneu vê
na obediência do Filho “na árvore” o desfazer da desobediência de Adão “na
árvore” (Adv. Haer. V,16-17): não uma substituição mecânica, mas a reordenação
da liberdade humana dentro do amor obediente do Verbo encarnado. Atanásio
sublinha o alcance ontológico: «O Verbo “tomou um corpo capaz de morrer
para, pela morte, matar a morte» (De Incarnatione 8-10)
— e é desta vitória que Paulo
vive quando afirma “fui crucificado com Cristo”. Máximo o Confessor traduz isso
em ética ascética: “Quem cumpre os mandamentos crucifica com eles as paixões”
(Cent. Car. I,27). A Cruz passa, então, do rito à vida: do lenho venerado ao
coração obediente. Gregório Palamás condensará: “A Cruz é escada de Jacó: pela
descida de Deus, a subida do homem” (Hom. XI). O ministro, primeiro entre os
discípulos, é chamado a ser transparência desta subida pela descida: quanto
mais desce na humildade e no serviço, mais a graça o eleva na eficácia do amor.
Sob esta luz, a aparente oposição
entre Gl 2 e Mc 8 dissolve-se numa sinfonia. Em Gálatas, Paulo confessa a fonte
teológica do agir: “na fé do Filho de Deus” — fé como adesão vivida à Pessoa
que Se entregou. Em Marcos, o Senhor descreve a forma deste agir: negar-se,
tomar, seguir. É o mesmo movimento: de Cristo para mim (dom), de mim para
Cristo (oblação); graça que precede e acompanha, liberdade que consente e
coopera — a sinergia ortodoxa tão esquecida quando se fala de justificação. Por
isso, uma pastoral cruciforme não é um ativismo heroico, mas Eucaristia
prolongada: “Tomai, comei… tomai, bebei” — a Igreja toma a Cruz que Cristo já
tomou, e, tomada por Ele, aprende a oferecê-Lo.
A Theotokos, ao pé da Cruz, é
ícone da Igreja. Ela não “resolve” a Cruz; permanece. E, permanecendo, torna-se
espaço onde a Palavra cumpre seu curso. A presença de Maria sob o lenho é o
locus eclesial em que a confissão paulina amadurece: “Cristo vive em mim”.
Por intercessão d’Ela, que
possamos todos nós aprender a juntar os três verbos do Evangelho a um quarto,
silencioso: PERMANECER.
Fontes patrísticas sugeridas:
Ireneu, Adversus Haereses V,16–17;
Atanásio, De Incarnatione 8–10 (PG 25);
João Crisóstomo, Hom. in Galatas/Marcum (PG 61);
Máximo, o Confessor, Centúrias sobre a Caridade I,27 (PG
90);
Gregório Palamás, Homilia XI.
Extraído do site: ecclesia.com.br.
«Não eu, mas Cristo em mim»: o caminho simples e inteiro do discípulo.
A Liturgia deste Domingo Após a
Festa da Exaltação da Preciosa e Vivificante Cruz, convida-nos a passar da
contemplação do mistério objetivo — a Cruz elevada, venerada e incensada — à
sua assunção subjetiva: a Cruz tomada, a Cruz vivida, a Cruz que configura o
discípulo. O movimento é deliberado: ontem venerávamos a árvore da vida; hoje,
pela Palavra, somos enxertados na sua seiva. A Igreja coloca lado a lado a
confissão paulina — “fui crucificado com Cristo… já não sou eu que vivo, mas
Cristo vive em mim” (Gl 2,19-20) — e a gramática do seguimento traçada pelo
Senhor: “negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mc 8,34). A cruz
venerada torna-se forma; o sinal traçado sobre o corpo torna-se morphosis da
alma (cf. Rm 6,17).
Na Epístola aos cristãos da Galácia,
Paulo não opõe fé e obras como se fossem termos excludentes, nem propõe uma
abolição da ascese; ele contrasta a economia antiga, na qual o homem buscava
justificar-se “pelas obras da Lei”, com a economia nova, onde a justiça é dom
do Crucificado, acolhido pela fé que opera pelo amor (Gl 5,6). “Morrer para a
Lei a fim de viver para Deus” (Gl 2,19) não é desobrigar-se do bem, mas recriar
o agir a partir de outra fonte: “o Filho de Deus, que me amou e Se entregou por
mim” (v. 20).
São João Crisóstomo nota que
Paulo “não suprime as obras, antes as enraíza na Cruz; pois é a Cruz que torna
fecundo o agir” (Hom. in Gal., PG 61). Por isso, a justificação desemboca numa
praxis cruciforme: oração que se dá, caridade que se consome, obediência que se
oferece.
O Evangelho explicita a mesma
dinâmica em três verbos que repartem a existência eclesial: negar-se, tomar (a
cruz), seguir (Mc 8,34). Negar-se não é ódio de si — heresia contra a criação
—, mas libertação do falso eu, composto de paixões e auto-referência, que
disputa com Cristo o trono do coração. Tomar a cruz não é procurar sofrimentos,
mas consentir em tudo o que, por Cristo e pelo Evangelho, mortifica a vontade
própria e, assim, abre espaço para o querer divino. Seguir é permanecer na
obediência — eclesial, doutrinal, pastoral — onde a liberdade encontra o seu
campo de jogo. Teofilacto observa:
“Tomar a cruz é acolher voluntariamente o que contraria a afeição do ego, por amor d’Aquele que primeiro levou a Cruz” (Enarr. in Marc. 8).
A tradição patrística lê estas
leituras como variações sobre um mesmo tema: a recapitulação na Cruz. Ireneu vê
na obediência do Filho “na árvore” o desfazer da desobediência de Adão “na
árvore” (Adv. Haer. V,16-17): não uma substituição mecânica, mas a reordenação
da liberdade humana dentro do amor obediente do Verbo encarnado. Atanásio
sublinha o alcance ontológico: «O Verbo “tomou um corpo capaz de morrer
para, pela morte, matar a morte» (De Incarnatione 8-10)
— e é desta vitória que Paulo
vive quando afirma “fui crucificado com Cristo”. Máximo o Confessor traduz isso
em ética ascética: “Quem cumpre os mandamentos crucifica com eles as paixões”
(Cent. Car. I,27). A Cruz passa, então, do rito à vida: do lenho venerado ao
coração obediente. Gregório Palamás condensará: “A Cruz é escada de Jacó: pela
descida de Deus, a subida do homem” (Hom. XI). O ministro, primeiro entre os
discípulos, é chamado a ser transparência desta subida pela descida: quanto
mais desce na humildade e no serviço, mais a graça o eleva na eficácia do amor.
Sob esta luz, a aparente oposição
entre Gl 2 e Mc 8 dissolve-se numa sinfonia. Em Gálatas, Paulo confessa a fonte
teológica do agir: “na fé do Filho de Deus” — fé como adesão vivida à Pessoa
que Se entregou. Em Marcos, o Senhor descreve a forma deste agir: negar-se,
tomar, seguir. É o mesmo movimento: de Cristo para mim (dom), de mim para
Cristo (oblação); graça que precede e acompanha, liberdade que consente e
coopera — a sinergia ortodoxa tão esquecida quando se fala de justificação. Por
isso, uma pastoral cruciforme não é um ativismo heroico, mas Eucaristia
prolongada: “Tomai, comei… tomai, bebei” — a Igreja toma a Cruz que Cristo já
tomou, e, tomada por Ele, aprende a oferecê-Lo.
A Theotokos, ao pé da Cruz, é
ícone da Igreja. Ela não “resolve” a Cruz; permanece. E, permanecendo, torna-se
espaço onde a Palavra cumpre seu curso. A presença de Maria sob o lenho é o
locus eclesial em que a confissão paulina amadurece: “Cristo vive em mim”.
Por intercessão d’Ela, que
possamos todos nós aprender a juntar os três verbos do Evangelho a um quarto,
silencioso: PERMANECER.
Fontes patrísticas sugeridas:
Ireneu, Adversus Haereses V,16–17;
Atanásio, De Incarnatione 8–10 (PG 25);
João Crisóstomo, Hom. in Galatas/Marcum (PG 61);
Máximo, o Confessor, Centúrias sobre a Caridade I,27 (PG
90);
Gregório Palamás, Homilia XI.
Vida dos Santos
Data de celebração: 21/09/2025
Tipo de festa: Fixa
Santo (a) do dia: São Kodratos de Magnésia, apóstolo [dos 70] (séc. 1)
Biografia:
Hino do dia
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Celebrações do dia
1. São Kodratos, o Apóstolo "ὁ ἐν Μαγνησίᾳ"
2. Profeta Jonas
3. São João Salvador
4. Santo Eusébio
5. Santos Eusébio, Nestavos e Zeno os irmãos Nestor e Vousiris
6. Santo Isaac, bispo de Chipre
7. São Prisco
8. Santos Seis Mártires
9. Agia Vassa
10. São Platão Aivazidis
11. Recuperação das Sagradas Relíquias de São Demétrio, Metropolita de Rostov
12. Encontro da Virgem do Doutor em Thirasia
13. Celebração da festa da Exaltação da Santa Cruz
Leituras dos dia
Matinas - Lucas 24, 1-12
Epístola - Gálatas 2, 16-20
Evangelho - Marcos 8, 34-38; 9, 1
Epístola - Gálatas 2, 16-20
Evangelho - Marcos 8, 34-38; 9, 1
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Jejum
Livre
Permitido todos os alimentos
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Permitido todos os alimentos
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)

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