Domingo após a Santa Teofania
«Domingo Após a Santa Teofania do Senhor»
Leituras bíblicas: Hebreus 13,7–16; Mateus 4,12–17 (Modo plagal 2º)
Ainda ressoa na Igreja a grande alegria da Santa Teofania: o Filho desce às águas do Jordão, o Pai dá testemunho com sua voz, e o Espírito Santo manifesta-se em forma de pomba. Aquilo que foi proclamado nas águas do Rio Jordão — a manifestação do Deus uno e trino e o início da obra salvífica na história — começa agora a frutificar publicamente: a Luz que brilhou no Jordão se acende na Galileia, e a palavra do Reino ecoa pela primeira vez como anúncio contínuo:
“Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17).
O Evangelho segundo Mateus situa esse começo em um momento decisivo:
“Ao ouvir que João fora preso, Jesus retirou-se para a Galileia” (Mt 4,12).
Não é recuo de medo, mas passagem providencial: o Precursor completa sua missão, e o Cristo inicia a sua. O silêncio imposto à voz que clamava no deserto torna ainda mais evidente que, agora, fala o próprio Verbo. A prisão de João, paradoxalmente, abre as portas para a plena manifestação daquele a quem João apontara.
Mateus insiste que tudo isso se dá “para se cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías” (cf. Mt 4,14–16; Is 9,1–2): o povo que habitava nas trevas vê grande luz. A Galileia, região de fronteiras, marcada por mistura de povos e culturas, torna-se o primeiro palco do anúncio. Assim, desde o início, o Evangelho se revela universal: a salvação não se fecha em um círculo étnico, mas irrompe como claridade para “os que jaziam na região e sombra da morte” (Mt 4,16).
A Teofania não é apenas um esplendor do passado; ela inaugura o presente: a luz começa a percorrer o mundo, e sua primeira exigência é a conversão.
Aqui convém notar a sobriedade da pregação do Senhor. Ele não começa com discursos longos, mas com uma palavra breve, incisiva, que contém tudo: arrependei-vos. Esse chamado não é moralismo, nem ameaça; é abertura de caminho. A conversão evangélica é mudança de direção: sair da sombra para a luz, abandonar a vida curvada sobre si mesma e voltar-se para Deus.
São João Crisóstomo observa, ao comentar o início da pregação em Mateus, que Cristo conduz as almas “não pela violência, mas pela persuasão”, atraindo-as à verdade pela mansidão e pela luz do ensinamento (Homilias sobre Mateus, hom. 14). O arrependimento pedido por Cristo é resposta à proximidade do Reino: não se trata de preparar uma vinda distante, mas de acolher uma presença real.
É por isso que este domingo, colocado logo após a Teofania, fala diretamente do nosso Batismo. São Clemente de Alexandria descreve o Batismo como “iluminação”, “regeneração” e “banho”, pelo qual somos feitos filhos de Deus e recebemos o penhor da vida incorruptível (Paedagogus I,6; PG 8). A imagem da luz não é apenas poética: ela é sacramental. No Jordão, Cristo entra nas águas não para ser purificado, mas para santificar a criação e abrir, para nós, o caminho do novo nascimento. E então, iluminados, somos chamados a viver como filhos da luz.
A Epístola aos Hebreus, por sua vez, oferece o modo concreto dessa vida nova:
“Lembrai-vos dos vossos dirigentes… considerai o fim de sua vida e imitai a sua fé” (Hb 13,7).
Depois de contemplar João Batista como Precursor e testemunha da Verdade — e depois de celebrar a manifestação do Senhor — a Igreja nos recorda que a fé não é ideia abstrata: ela se transmite por vida entregue, por exemplo, por perseverança. A mesma passagem afirma:
“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).
No calendário litúrgico, passamos da Teofania ao início da pregação na Galileia; na vida espiritual, passamos do dom recebido à fidelidade cotidiana. O Cristo que se manifestou no Jordão é o mesmo que chama à conversão hoje; e é o mesmo que será encontrado “fora do acampamento”, no caminho da cruz.
Hebreus ainda diz:
“Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento, levando o seu opróbrio” (Hb 13,13).
É uma palavra profundamente evangélica: seguir Cristo é aprender a não buscar segurança em honras, aplausos ou comodidades. É permanecer com ele também quando a verdade custa. Não por gosto de sofrimento, mas por amor fiel. A conversão, então, ganha carne: torna-se renúncia ao pecado, combate às paixões e oferta do coração a Deus. E essa oferta se expressa em dois altares inseparáveis: o louvor e a caridade.
“Ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor… Não vos esqueçais da beneficência e da comunhão, porque com tais sacrifícios Deus se compraz” (Hb 13,15–16).
O verdadeiro culto jamais se reduz a palavras; ele transborda em misericórdia.
Também aqui a tradição patrística é clara. Santo Irineu de Lião, ao falar da obra de Cristo, sublinha que o Senhor veio para salvar todas as idades da vida humana e para santificar o homem inteiro; por isso a Igreja sempre compreendeu o Batismo como dom que alcança a todos, desde cedo (Contra as Heresias II,22,4; PG 7). A graça não é prêmio para os “prontos”, mas remédio e vida para os que se entregam ao Médico. E se a graça é dada, ela pede cooperação: viver como batizados, como iluminados.
Neste tempo pós-Teofania, a própria hinografia continua a educar o coração. O tropário da festa ainda canta:
“Em teu batismo no Jordão, Senhor, foi manifestada a adoração da Trindade; pois a voz do Pai te testemunhou ao chamar-te Filho bem-amado; e o Espírito, em forma de pomba, confirmou a verdade dessa palavra. Ó tu, que manifestaste e iluminaste o mundo, Cristo Deus, glória a ti!”
Esta é a síntese: manifestaste e iluminaste. Se Cristo ilumina o mundo, então a vida cristã não pode permanecer na penumbra: ela se torna testemunho. Não por ostentação, mas por transparência. A luz do Reino começa no arrependimento e floresce em obras de fé: oração mais sóbria, vigilância do coração, reconciliação, fidelidade na família, justiça no trabalho, generosidade para com os pobres, paciência nas tribulações. Assim, a Teofania se prolonga na história: a luz vista na Galileia passa a brilhar, discretamente, em cada alma que se volta para Cristo.
Referências patrísticas e bíblicas (citadas no texto):
Sagrada Escritura: Hb 13,7–16; Mt 4,12–17; Is 9,1–2.
São Clemente de Alexandria, Paedagogus I,6 (PG 8).
Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias II,22,4 (PG 7).
São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus (hom. 14,
Referências Bibliográficas
GOMES, Folch. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Ed. Paulinas, 1979.
BERARDINO, Ângelo. Dicionário Patrístico e das Antiguidades Cristãs. Petrópolis: Ed. Vozes, 2002.
KALA, Thomas. Meditações sobre Ícones. São Paulo: Ed. Paulus, 1995.
D. IrineoBispo de Tropaion
Extraído do site: ecclesia.com.br
Vida dos Santos
S. Teodósio Cenobiarca
Data de celebração: 11/01/2026
Tipo de festa: Fixa
Santo (a) do dia: S. Teodósio Cenobiarca († c. 529)
Biografia:
São Teodósio nasceu em Gariso, na Capadócia, no ano 423. Já havia sido ordenado leitor quando, a exemplo do Patriarca Abraão, deixou sua pátria e família, iniciando uma viagem à Jerusalém. Na viagem, desviou um pouco a sua rota e visitou São Simeão, o Estilita, de quem ouviu muitas predições sobre sua vida futura e obteve dele alguns conselhos. Enquanto visitava os lugares santos, em Jerusalém, São Teodósio, refletia sobre a melhor forma de consagrar-se a Deus. Escolheu então a vida monástica, pois achava que viver sem um diretor espiritual era muito perigoso. Assim pôs-se sob a direção espiritual de Longino, um santo homem de Deus que nutriu um grande afeto por seu discípulo. Em Belém, uma senhora havia construído uma igreja e Longino encarregou Teodósio de seu cuidado pastoral. Teodósio não quis aceitar, mas por necessidade, Longino lhe impôs esta obrigação em nome da obediência. Teodósio não ficou muito tempo no cargo, retirando-se logo para uma cela em uma gruta no cume de uma montanha vizinha.
Logo começaram a reunir-se numerosos companheiros que queriam servir a Deus sob sua direção. A principio, Teodósio só admitiu sete ou oito, mas em pouco tempo teve que aumentar este números chegando a não recusar nenhum vocacionado que manifestasse disposições sinceras. A primeira lição que deu aos seus companheiros foi mostrar-lhes um grande fosso que havia escavado nos arredores, e que haveria de servir como sepultura comum, para recordar-lhes que deveriam aprender a morrer a si mesmos constantemente.
Um dia de Páscoa, os monges que já eram em numero de 12, e não tinham nada para que comer, nem ao menos um pão para celebrar a a Divina Liturgia. Alguns começaram a murmurar, porém São Teodósio os exortava a terem confiança na Divina Providencia. Pouco tempo depois chegou ao monastério uma tropa mulas carregadas com alimentos. Por atrair inúmeros aspirantes a vida religiosa, por causa da santidade de Teodósio, o monastério tornou-se pequeno. Teodósio construiu outro monastério maior localizado em um sitio chamado Catismo, próximo de Belém. Construiu também três hospitais: um para os doentes , outro para os anciãos e outro para os deficientes mentais. Neste lugares as pessoas encontravam socorro material e espiritual. Segundo narrativas, em alguns dias Teodósio recebia em seus albergues mais de 100 pessoas. Quando a alimentação era insuficiente para tantas pessoas, São Teodósio fazia multiplicar por suas orações. O monastério era uma espécie de cidade de santos em meio ao deserto. A ordem, o silêncio e a caridade reinavam nele. Quatro igrejas eram assistidas pelo monastério. Três eram dedicadas a cada um dos diferentes idiomas dos monges. A quarta era dedicada aos penitentes e aos que estavam em processo de cura. A comunidade estava dividida em três nacionalidades principais: aos gregos, que eram em maior número, e que vinham de todas as províncias do império; aos armênios entre os quais os árabes e os persas e, finalmente os monges de língua eslava e os originários das regiões vizinhas da Trácia. Cada nação cantava em sua própria igreja a parte da Divina Liturgia até o Evangelho; em seguida todos se reuniam na igreja dos gregos, onde celebravam a parte principal da liturgia e lá comungavam. Os monges passavam grande parte do dia e da noite na igreja. Nas horas de oração e descanso, executavam trabalhos para ajudar na manutenção do monastério. Salustio, Patriarca de Jerusalem, nomeou São Savas, superior dos eremitas, e São Teodósio superior dos monges que viviam em comunidade em toda Palestina. Por isso São Teodósio é chamado de “o Cenobiarca”. Grande amizade unia estes dois santos e, posteriormente, os sofrimentos iria uni-los ainda mais à Igreja. O imperador Anastácio apoiava a heresia de Eutiques e empreendeu vários esforços para que São Teodósio também a aderisse. No ano 513, depôs Elias, Patriarca de Jerusalém; antes, já ahavia desterrado Flaviano II de Antioquia, pondo em seu lugar Severo. São Teodósio e Savas defenderam veementemente os direitos de Elias e de seu sucessor João. Os agentes imperiais, conhecendo a fama de santidade de ambos, procuravam persuadi-los a defender sua causa. A ponto de o imperador enviar a Teodoro uma grande soma de dinheiro, com o pretexto se ajudar as obras de caridade. No entanto, esta doação envolvia outros interesses. São Teodósio aceitou o dinheiro e o distribuiu aos pobres. Anastásio, crendo que já tinha conquistado o apoio de Teodósio, enviou um documento (Profissão de fé onde as duas naturezas de Cristo se confundiam em uma só) para ser assinado). São Teodósio lhe respondeu com uma outra carta que aplacou o imperador por um tempo. Logo em seguido renovou os editos que perseguiam os cristãos ortodoxos e despachou tropas para executá-los. Ao saber disso, São Teodósio partiu por toda a Palestina exortando aos cristãos que permanecessem fieis aos ensinamentos dos quatro concílios ecumênicos. Em Jerusalém, gritou do púlpito: “quem não considera os ensinamentos dos quatro concílios ecumênicos como os quatro Evangelhos merece a morte eterna”. Estas palavras reanimaram os cristãos aterrorizados pelos editos imperiais. Os sermões de Teodósio produziram efeitos maravilhosos e Deus confirmava seu zelo com milagres surpreendentes. Estre estes, conta-se que uma mulher que sofria de tumores, foi rapidamente curada ao tocar nas vestes de Teodósio. O Imperador então decidiu desterrar Teodósio. O imperador Anastásio morreu pouco depois e seu sucessor tirou Teodósio do exílio. Nos últimos anos de vida, Teodósio foi tomado por uma grave enfermidade quando pode dar provas de sua paciência e submissão absoluta à vontade de Deus. Uma pessoa que assistia seus sofrimentos lhe rogara que orasse a Deus para aliviar suas dores, mas Teodósio negava-se a fazer, dizendo que se fizesse, constituiria falta de paciência. Quando Teodósio compreendeu que seu fim estava próximo, dirigiu a seus discípulos uma ultima exortação e predisse muitas coisas que iria acontecer após sua morte. O santo cenobiarca entregou sua alma a Deus em 529, aos 105 anos. O Patriarca Pedro de Jerusalém e toda a cidade assistiram seus funerais onde pode comprovar vários milagres. Foi sepultado dentro da primeira cela que havia ocupado, chamada “ gruta dos magos”, pois havia uma tradição que dizia que os Reis Magos haviam se abrigado ali, quando foram adorar o Senhor, em Belém.
Trad.: Pe. Pavlos
Hino do dia
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Celebrações do dia
1. São Teodósio o plebeu
2. São Teodósio Abade do Mosteiro de Filoteos no Monte Athos e Bispo de Trabzon
3. Reunião dos Anjos Myrian
4. Santos Estêvão em Plakidiana, Theodoros e Agapios Arquimandrita
5. Santa Maria
6. São Vitalios
7. Comemoração da inauguração da Igreja da Grande Igreja de Cristo em Thessaloniki
8. São Miguel de Christon Salos e Milagreiro
9. São Nikiforos Novo Mártir de Creta
10. Santos Pedro, Severios e Lefkios, os Mártires
11. São Hyginos bispo de Roma
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)


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