«Levantar-me-ei e irei ter com meu pai… E lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de Ti; já não sou digno de ser chamado teu filho». (Lc 15:18).
«Domingo do Filho Pródigo»
«A Parábola do Filho Pródigo»
Leitura
bíblicas: Epístola: 1 Cor 6:12–20 | Evangelho: Lc15:11–32
(II
Domingo do Triódion)
O
Regresso do Exílio: Arrependimento e o Abraço do Pai
Introdução
Temática e Litúrgica
O segundo
domingo do Triódion quaresmal, conhecido como o Domingo do Filho Pródigo,
coloca diante de nós uma das parábolas mais comovedoras e profundamente
pessoais do Evangelho. Após a lição sobre a humildade do Publicano, a Igreja
nos convida a contemplar a dinâmica do arrependimento não como um mero
sentimento de culpa, mas como um retorno existencial da terra do exílio à
casa do Pai. Este domingo marca um passo decisivo no aquecimento para a Grande
Quaresma, onde o tema central é a liberdade humana e a misericórdia divina que
a espera, por mais distante que ela tenha ido. A liturgia deste dia,
enriquecida pelo canto do Salmo 136 (137) — “Junto aos rios da Babilônia” —,
nos imerge no sentimento de saudade da pátria espiritual e na certeza de que
Deus aguarda nosso regresso com amor infinito.
Apresentação
da Perícope Bíblica
As
leituras propostas para este domingo são:
- Epístola: 1 Coríntios 6:12–20, na qual São Paulo exorta a glorificar a Deus no próprio corpo, templo do Espírito Santo.
- Evangelho: Lucas 15:11–32, a Parábola do Filho Pródigo, que narra a saída, a queda, o arrependimento e o regresso festivo do filho mais novo, bem como a resposta do irmão mais velho.
O
versículo-chave que ecoa como um refrão da alma penitente é: “Levantar-me-ei
e irei ter com meu pai… E lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de Ti;
já não sou digno de ser chamado teu filho” (Lc 15:18).
A
parábola, longe de ser apenas uma lição moral, é uma iconografia viva da
economia da salvação. O filho mais novo representa a humanidade — e cada alma
individual — que, dotada da liberdade divina (cf. Moisés, o Atonita),
escolhe afastar-se da comunhão com o Pai, desperdiçando a herança da graça
batismal em prazeres efêmeros. Seu destino na “terra distante” simboliza
a alienação existencial resultante do pecado, onde a fome espiritual
substitui a saciedade da casa paterna.
A
virada crucial ocorre quando ele “cai em si” (Lc 15:17). Este momento de
lucidez, como ensina São Gregório Palamas, é o despertar do nous (a
mente/inteligência espiritual) que, entorpecido pelas paixões, recorda-se de
sua verdadeira identidade e pátria. O arrependimento (metanoia) não é aqui um
mero remorso, mas uma decisão ativa de levantar-se e voltar, movida pela
memória do amor do Pai.
O abraço
do Pai — que sai ao encontro do filho antes mesmo que este complete sua
confissão — revela o coração do Deus cristão: a misericórdia precede e
supera qualquer justiça retributiva. Como proclama São Cirilo de Alexandria,
este gesto é a resposta de Cristo aos fariseus que murmuravam: “Este recebe
pecadores e come com eles” (Lc 15:2). A túnica, o anel e as sandálias
conferidos ao filho são símbolos sacramentais da restauração da filiação
divina, da autoridade do Espírito Santo e da proteção contra as feridas do
caminho (o pecado e o demônio).
O
drama, porém, não se encerra no filho mais novo. A figura do irmão
mais velho introduz uma advertência pastoral perfundidíssima. Como observa
o Arcebispo Chrysostomos, ele representa a justiça própria, o orgulho
espiritual e a inveja que podem habitar mesmo aqueles que “nunca
transgrediram um mandamento”. Seu ressentimento diante da festa pela conversão
do irmão revela que sua permanência na casa do Pai era física, não espiritual.
Ele serve, nas palavras do Bem-Aventurado Teofilacto, de advertência aos
autojustos que julgam os pecadores arrependidos e fecham o coração à
alegria divina pela salvação dos perdidos.
A
tradição patrística oferece ricas camadas de interpretação para esta parábola:
São
Gregório Palamas vê na jornada do filho pródigo a dinâmica do nous que,
ao dispersar-se nas paixões, perde sua riqueza interior, mas que, no
arrependimento, é revitalizado e reunido a Deus (Homilia sobre o Filho Pródigo).
Ele também comenta sobre a cegueira do irmão mais velho, que é “ignorante das
riquezas da bondade de Deus” (Homilia 3, §22-23).
São
Cirilo de Alexandria situa a parábola no contexto da controvérsia com
fariseus e escribas, identificando o filho mais novo com os publicanos e
pecadores, e o mais velho com os autossuficientes que se recusam a participar
da alegria divina pelo arrependimento (Homilias sobre Lucas, Sermão 107).
São
João Crisóstomo ressalta a grandeza do arrependimento que merece
honras ainda maiores, ensinando que “não há comparação entre a misericórdia
humana e a divina” (Homilia sobre 1 Timóteo; citado também no Suplemento
Litúrgico).
São
Pedro Damasceno oferece um bálsamo contra o desespero: “Não
desespere, mesmo que tenhas pecado muitas vezes”, exortando-nos a imitar a
humildade do publicano e a confiar na compaixão de Deus, que aceitou tanto o
filho pródigo quanto a prostituta arrependida.
Aplicação
Concreta
- O Convite ao Exame de Consciência: Este domingo é um tempo propício para perguntarmo-nos: Em que “terra distante” minha alma habita? Qual paixão, orgulho ou hábito me mantém exilado da plena comunhão com Deus e com a Igreja?
- O Sacramento da Confissão como Regresso: A parábola é um ícone perfeito do Sacramento da Reconciliação. O “levantar-se e ir” é a decisão de confessar-se. O abraço do Pai é a absolvição. A túnica, o anel e o banquete são a graça santificante restaurada. A Quaresma é o kairos por excelência para redescobrir este “verdadeiro tesouro”, como exorta São João Damasceno.
- O Perigo do Irmão Mais Velho em Nós: A aplicação mais desafiadora é vigiar contra o farisaísmo interior. Quantas vezes, consciente ou inconscientemente, nos consideramos “melhores” que outros, ressentimo-nos das graças que eles recebem ou fechamos nosso coração à reconciliação fraterna? A oração deve incluir: “Senhor, livra-me da justiça própria que me impede de entrar na Tua alegria.”
- A Alegria da Comunidade: A festa do pai é modelo para a comunidade eclesial. A Igreja deve ser o lugar onde o regresso de um irmão é celebrado com genuína alegria, sem murmurações nem julgamentos. A atitude do irmão mais velho é um vírus que destrói a comunhão.
- Indicações Litúrgicas
- Tropario e Kondákio do Dia: O kondakio sintetiza o grito da alma penitente: “Tendo abandonado tolamente a Tua glória paterna, esbanjei em vícios a riqueza que me destes. Por isso, com a voz do filho pródigo, clamo a Ti: ‘Pequei contra Ti, ó Pai Compassivo! Recebe-me como um arrependido e faze-me como um dos Teus servos!’”
- Hino Salmos: A introdução do Salmo 136 (137) – “Junto aos rios da Babilônia” – nas Matinas deste e dos próximos domingos, cria uma atmosfera de exílio e saudade que prepara o coração para o arrependimento quaresmal.
- Prática Ascética: É a última semana em que a carne é permitida antes do Domingo da Carnes (Apokreo). Este gradual abrandamento dos prazeres sensíveis acompanha o convite a um jejum interior dos prazeres que nos afastam do Pai.
Conclusão orante
O
retorno ao Pai
Pai
amorosíssimo,
que esperas com o coração aberto
na soleira da tua casa,
dá-nos a graça de “cair em si”
no meio de nossos desertos.
Que a memória da tua bondade
nos faça levantar e voltar,
com lágrimas de arrependimento
e certeza do teu perdão.
E, acolhidos em teu abraço,
que jamais nos fechemos à festa do céu
por um só irmão que regressa,
mas, com os anjos e os santos,
nos alegremos em tua misericórdia sem fim.
Amém. †
Fontes
e referências bibliográficas:
GREGÓRIO
PALAMAS. Homilia sobre o Filho Pródigo. In: PG 151, 177–192.
CIRILO
DE ALEXANDRIA. Homilias sobre Lucas, Sermão 107. In: PG 72,
836–856.
JOÃO
CRISÓSTOMO. Homilia sobre 1 Timóteo, 15:3. In: PG 62, 585–586.
PEDRO
DAMASCENO. Para os que pensam ser justificados pelas obras.
In: Philokalia (ed. em inglês), vol. 3.
Triódion
Quaresmal (versão litúrgica aprovada em português). Kontakion do Domingo
do Filho Pródigo.
Textos
de Hierotheos Vlachos, Moisés o Atonita e Arcebispo Chrysostomos fornecidos
Teodoro, o Comandante e Grande Mártir
Vida dos Santos
Data de celebração: 08/02/2026
Tipo de festa: Fixa
Santo (a) do dia: São Teodoro, chefe militar, megalomártir (†319)
Biografia:
Hino do dia
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Celebrações do dia
1. São Teodoro o Stratilatis
2. Profeta Zacarias
3. Santos Marta, Maria e Lycarion o Santo Mártir
4. Santos Nikiforos e Stefanos, os Mártires
5. Santos Filadélfia e Policarpo
6. São Makarios bispo de Paphos
7. São Pergetos
8. São Savvas Arcebispo da Sérvia
9. Santo Agathangelos Bispo de Damasco
Leituras do dia
Matinas - Marcos 16, 1-8
Epístola - I Coríntios 6, 12-20
Evangelho - Lucas 15, 11-32
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)
Jejum
Permitido todos os alimentos
Extraído do site: Ορθόδοξος Συναξαριστής (Livro Ortodoxo dos Santos)


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